
Com um narrador mais do que onisciente, a obra “O evangelho segundo Jesus Cristo” nos apresenta a história de Jesus Cristo de um modo bem mais real do que o esperado. Mostrando Jesus como um homem à frente de sua época, que debate e discute até com Deus, o livro vai nos colocando à par da história e mostrando seus “personagens” tão reais e cheio de detalhes que fica difícil não achar um certo veredicto. Tudo isso porque Saramago, mesmo tentando deixar claro o quanto sua obra é ficcional (“tudo é o que dissermos que foi”, pag 204), nos mostra cada desejo, dúvida e pensamento de quem faz parte da história. Logo no começo do livro, por exemplo, na cena em que na Bíblia José receberia a visita do anjo Gabriel com a mensagem que Maria estava grávida de um filho de Deus, o homem levanta por vontade de urinar esquecendo-se por alguns instantes o que lhe afligia a mente. O fato de mostrar José com problemas do cotidiano, nos aproxima da história e nos faz questionar com o narrador, que o tempo todo coloca-se no presente assim como nós.
É claro que essas verossemelhanças pouco agradariam à uma boa parte dos leitores. Colocar Jesus como alguém tão próximo à seus súditos é algo quase injustificável. Pior fica quando Jesus, podendo conversar com Deus, o enche de perguntas e acusações que muitos de nós, leitores ou não, no fundo pensamos. E, por mais incrível que pareça, Deus em todos os questionamentos mostra-se conhecedor dos problemas e sofrimentos de seu povo e, ás vezes, pouco interessado. Como nos trechos: “Esses foram lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tu és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, (…), e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. (…). Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue. (…)” ; “Todos eles vão ter de morrer por causa de ti, perguntou Jesus, Se pões a questão nesses termos, sim, todos morrerão por minha causa, E depois, Depois, meu filho, já te disse, será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas (…)”. É fácil, ainda, imaginar a cara dos leitores ao ler, por exemplo, a cena de amor entre Jesus e Maria Magdala. Teoria que há anos é deixada de lado, mas no livro de Saramago é mais que comprovada dentro de sua ficção.
Nos apresentando sua realidade, Saramago nos torna mais próximos da figura de Jesus. Nada comparado ao Jesus santificado que nos é transpassado no decorrer da Bíblia. Jesus, para o leitor, acaba sendo quem o lê. Sendo isso bom ou ruim, só lendo para entender.
Esse texto foi uma colaboração para o site do Meia Palavra, do Portal MTV.















