
Olá, sou professora de filosofia e dou aula para alunos de 15 à 19 anos (…). Gostaria de saber do Jostein Gaarder, já que o mesmo lecionou filosofia durante anos, como ele lida com essa matéria (…), vendo que é muito complicado tirar da cabeça dos alunos que a filosofia é apenas para loucos ou gênios. – pergunta da plateia
Jostein Gaarder: “É realmente complicada essa visão da filosofia (…). Mas, quando eu lecionava, era só transformar as coisas de um jeito que se tornasse prazeroso ao aluno (…) Era só fazer perguntas. Você não precisa tanto de datas, de nomes ou de lugares… simplesmente sente na frente deles e pergunte coisas que todos se perguntam, porque esse é o papel da filosofia. Questionar (…)”.
Pretendo ser escritora e gostaria que vocês dessem dicas para os iniciantes (…) – pergunta da plateia
John Boyne: “Na verdade não existem muitas dicas para isso. No meu caso, por exemplo, eu sinto prazer em escrever (…) é uma coisa que vem de dentro de mim e não vai parar nunca. Eu sempre estou escrevendo, até antes de vir aqui, para o debate, eu estava escrevendo (…). Então, para os novos escritores, eu só posso pedir que ESCREVAM. Escrevam sempre! Uma vez por dia, todos os dias (…) Um amigo meu dizia que se escrevêssemos todos os dias, em um ano teríamos 365 páginas, e isso é um livro bem grande (…)E também leiam, leiam muito. A leitura só traz coisas boas, melhora tudo: nossa escrita, nossa memória, nossa imaginação (…). E, por último, reescrevam. Esse é o principal segredo. Existem pessoas que acham que da primeira vez que escrevem está tudo perfeito, mas isso é mentira. Um rascunho é sempre um rascunho. Ali está só a base, as primeiras ideias que saíram descontroladamente”; Jostein Gaarder ainda completou: “Logo que eu comecei nessa carreira, eu escrevi um livro gigante. Mas, cometi um erro terrível para mim mesmo: não deixei que os outros o vissem e nem o rê-li. Assim que o terminei, mandei direto para a editora (…) Esse livro nunca foi publicado, obviamente. E eu, depois que o li, sequer gostei do que eu havia escrito (…). Concordo com Boyne, reescrevam e reeditem quantas vezes for necessário. Nem que, para isso, tenham que refazer o livro todo”.
Olá, meu nome é Tatiany Leite e escrevo para um blog sobre livros (…). Gostaria de saber, aproveitando a última pergunta, o que vocês acham sobre a internet. Isto é, acham que a internet é um bom canal para quem está começando agora?
John Boyne: “Eu sou absolutamente viciado em internet. Se eu chego, por exemplo, em um hotel que não tem internet eu fico louco (…). Fiquei com inveja de Gaarder porque ele sequer trouxe seu notebook! E isso, para mim, é muito estranho (…) Faço tudo na internet e acho que, hoje em dia, é difícil que não o faça, mas a internet é algo complicado. Quando alguém escreve na internet, não significa necessariamente que é um escritor (…) O papel de uma editora, por exemplo, é fundamental… Quando você é escritor, há todo esse processo que faz parte da criação de uma boa obra (…)”,
Jostein Gaarder: “A internet hoje em dia é algo imprescindível para qualquer pessoa. John disse que eu não trouxe notebook, mas eu o trouxe indiretamente. Eu tenho esse aparelho, (Jostein mostrou algo que pareceu ser um ipod), que me dá total contato com o mundo tecnológico. Daqui eu posso entrar em meus e-mails e ainda verificar todas as minhas obras (…) Todas as minhas obras e textos estão nesse pequeno aparelho que carrego no bolso e isso é absurdamente incrível(…). Acho que o papel da internet é tremendamente importante para quem começa a escrever. O jovem precisa de algo que o acompanhe e a internet veio para isso(…)”.
No livro Maya, de Jostein Gaarder, os personagens falam sobre a possibilidade de beber-se um líquido mágico que teria o poder de torná-los imortais (…) John nos disse que é tão viciado em escrever que, possivelmente, quando morresse estaria no meio de um livro; enquanto Jostein mostrou-se apreensivo por achar que, em alguma hora, não terá mais o que oferecer como escritor (…) Então, se vocês pudessem beber esse elixir da vida, vocês o beberiam? E, se sim, continuariam escrevendo ou acham, realmente, não teriam mais o que oferecer para seus leitores?
John Boyne: “Uau, essa é uma pergunta bem difícil (…). Eu não sei, eu continuaria com essa aparência magnífica que tenho? (…) Caso eu bebesse esse elixir, tenho certeza que continuaria escrevendo, não me vejo parando nunca (…) Esses dias brinquei com meu pai que nunca me aposentaria, não me vejo sendo um velhinho que não escreve (…) Não sei se respondi muito bem”.
Jostein Gaarder: “Muito interessante sua pergunta. No meu livro, Maya, em determinado momento, uma das personagens pega um esqueiro e entrega ao seu parceiro dizendo que, caso ele o abra, se tornará imortal. E o personagem, sem pestanejar, abre o esqueiro (…) São pouquíssimas pessoas que optam por isso (…) Tenho certeza que, caso eu pergunte aqui, ninguém escolheria ser imortal. É uma decisão complicada (…) Mas, eu escolheria (…) Adoraria ver o mundo passando e poder contar a história como vi de verdade, mas não sei se teria memória para isso. Digo, John quer manter sua beleza mas, imaginem eu que já sou mais velho. Me tornaria imortal nessas condições? Não sei, caso tivesse memória e condições para isso, continuaria escrevendo sobre cada detalhe (…)”.
John Boyne: “Vocês notaram que estamos respondendo como se realmente pudéssemos beber esse elixir? (…) Digo, Eu poderia pedir cabelos, por exemplo? (…)”.